O Brasil vive uma das transformações mais silenciosas — e mais decisivas — da história recente do nosso agronegócio A expansão do etanol de milho está, ao mesmo tempo, redesenhando a matriz energética nacional e reescrevendo a cadeia de insumos da nutrição animal.
E o protagonista dessa nova economia atende por uma sigla que, até pouco tempo, era tratada como subproduto de baixa relevância: o DDG (Dried Distillers Grains) e sua versão com solúveis, o DDGS.
Essas duas indústrias — etanol e nutrição animal — não se cruzam por acaso.
Elas se complementam.
E é hora de olhar com mais profundidade para o que está saindo das destilarias brasileiras.
Os números que sustentam a tese
O Brasil é hoje o terceiro maior produtor mundial de milho, atrás apenas de Estados Unidos e China.
A safra 2024/25 alcançou 128,3 milhões de toneladas, alta de 11% sobre o ciclo anterior, segundo a Conab¹.
O motor desse crescimento continua sendo a safrinha — o milho de segunda safra, plantado logo após a soja, que protege o solo, otimiza o uso da terra e gera biocombustível com baixa pegada de carbono, sem novos desmatamentos.
Sobre o etanol de milho, os dados são ainda mais expressivos:
- A produção saltou 30,7% em 2024/25, atingindo 8,19 bilhões de litros (UNICA)².
- Para a safra 2025/26, a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) projeta 9,9 bilhões de litros — alta de 20% em um único ciclo³.
- Existem 25 biorrefinarias em operação, mais 16 autorizadas para construção e outros 16 projetos em planejamento².
- O setor já mapeou R$ 40 bilhões em investimentos, sendo R$ 15 bilhões em novas plantas (para ampliar a capacidade em 5 bilhões de litros/ano) e R$ 25 bilhões em armazenagem e logística².
- O Centro-Oeste consolidou-se como polo: somente Mato Grosso concentra 13 biorrefinarias e moeu 12,5 milhões de toneladas de milho na safra 2024/25, com projeção de 13,5 milhões para 2025/26 (Imea/UNEM)³.
O etanol consome hoje cerca de 22 milhões de toneladas de milho por ano, segundo estimativas do Imea⁴, absorvendo boa parte do estoque interno, reduzindo custos logísticos e dando previsibilidade ao produtor rural.
DDG: de “sobra” a 30% do faturamento
A cada tonelada de milho processado, uma destilaria gera entre 360 e 380 kg de DDG.
Durante a fermentação, o amido é convertido em etanol, e os demais nutrientes — proteínas, fibras, gorduras e minerais — ficam concentrados em níveis até três vezes superiores ao grão original (Embrapa)⁵.
O que antes era considerado resíduo virou ativo estratégico:
- O DDG/DDGS representa hoje cerca de 30% do faturamento das destilarias de etanol de milho.
- A produção brasileira foi de 4,11 milhões de toneladas na safra 2024/25 e deve alcançar 4,9 milhões em 2025/26, alta de 19% em um único ano (UNEM)⁶.
- A projeção é dobrar a oferta nos próximos 10 anos, atingindo cerca de 6 milhões de toneladas/ano até o início da década de 2030.
- O Brasil exportou 879.358 toneladas de DDG/DDGS em 2025 para 25 destinos, crescimento de 9,77% sobre o ano anterior, com a primeira carga de 62 mil toneladas desembarcando na China no porto de Nansha, em Guangzhou — marco que abre uma nova fase comercial para o setor (MAPA)⁷.
A transição nutricional irreversível
A alimentação responde por 70% a 80% do custo total na pecuária.
Qualquer insumo que mantenha desempenho e reduza preço deixa de ser opção e vira necessidade estratégica.
É exatamente aí que o DDGS se impõe.
Ele tem alto teor de proteína não degradável no rúmen (PNDR), funcionando como excelente fonte de proteína bypass.
Estudos de Klopfenstein e colaboradores mostram que o DDG apresenta de 60% a 70% da proteína bruta como PNDR — até 2,6 vezes mais que o farelo de soja — além de NDT (nutrientes digestíveis totais) na casa de 85% a 90%⁸.
Pesquisas publicadas pela UNESP demonstram que a substituição de 100% do farelo de algodão por DDG em dietas de bovinos de corte — tanto em fase de recria quanto de terminação — não comprometeu o ganho de peso dos animais⁹.
Em dietas de confinamento para touros Nelore, a inclusão de até 40% de DDGS, em substituição total ao farelo de algodão e parcial ao milho ou à polpa cítrica, resultou em aumento de peso de carcaça quente e em melhor eficiência alimentar.
A versatilidade vai além do gado de corte:
A matemática do bolso
A vantagem econômica é decisiva.
O custo por unidade de proteína do DDGS pode ser significativamente menor que o do farelo de soja — e até 79% menor que o da farinha de peixe, segundo levantamentos do setor.
Em formulações que tenho acompanhado no Tocantins, o DDGS sai por cerca de R$ 0,45/kg de ração, enquanto o farelo de soja chega a R$ 0,82/kg.
Em algumas formulações, isso significa redução de até 45% no custo direto de produção da ração.
E há mais um fator.
O etanol de milho saiu de R$ 2,10 para R$ 1,88/L entre as safras 2023/24 e 2024/25, enquanto o de cana subiu de R$ 2,22 para R$ 2,36/L.
O diferencial entre as rotas quadruplicou, de R$ 0,12 para R$ 0,48/L (Agroadvance)¹⁰.
Esse spread está sendo capturado, em boa parte, pela receita do DDG.
O gargalo que ninguém quer enxergar: a qualidade da secagem
Aqui mora a minha maior preocupação — e o ponto que mais bato nos eventos e nas conversas técnicas com produtores.
Boa parte das destilarias brasileiras ainda opera com secadores rotativos aquecidos por lenha ou vapor de alta temperatura.
Esse processo desencadeia a reação de Maillard, escurecendo o produto, destruindo aminoácidos essenciais e tornando a proteína indigestível.
No caso do DDG — naturalmente pobre em lisina — a digestibilidade desse aminoácido pode tender a zero.
Os estudos respaldam essa preocupação.
Pesquisas da Embrapa (com base em Dale & Batal, 2005) mostram correlação negativa significativa entre o escurecimento do DDGS e a digestibilidade ileal de lisina em aves⁵.
Trabalhos da UFU reforçam que temperaturas de secagem acima de 60 °C já promovem a reação de Maillard, reduzindo o valor nutricional das proteínas¹¹.
E há outro risco silencioso.
Como o processo concentra nutrientes em até três vezes, ele também triplica eventuais micotoxinas presentes no grão — um risco grave para a segurança alimentar de toda a cadeia.
A alternativa que tenho defendido é a transição para secadores de esteira com calor residual de baixa temperatura (40 °C a 80 °C).
Em alguns casos, é possível aproveitar até o calor ambiente.
Os ganhos:
- Digestibilidade proteica subindo de 78% para até 92%.
- Preservação da integridade celular dos nutrientes.
- Coloração dourada característica funcionando, de fato, como indicador visual de qualidade.
Peletização: o destravamento logístico
O DDG, em forma de farelo, é leve — em torno de 450 kg/m³ — e isso encarece drasticamente o frete no Brasil, país de longas distâncias.
Com a peletização, a densidade sobe para cerca de 750 kg/m³, permitindo carregar até 40% mais produto no mesmo caminhão.
Em um país onde o custo logístico pode comprometer a competitividade do insumo, isso não é detalhe técnico.
É o que viabiliza o DDGS brasileiro chegando ao Sul, ao Nordeste e à porta dos portos com preço competitivo.
Qualidade certificada: o próximo salto
O Brasil precisa avançar em selos de qualidade.
Padrões internacionais como GMP+ e HACCP já são referências consolidadas, mas o mercado interno demanda certificações específicas para DDG/DDGS que garantam às fábricas de ração segurança plena na adoção do ingrediente.
Vários especialistas brasileiros já trabalham nesse desenho.
Sem certificação, perdemos competitividade — sobretudo para o mercado europeu, que paga mais, mas exige rastreabilidade e qualidade rigorosamente comprovadas.
A entrada recente do DDGS brasileiro na China abre uma janela enorme, mas a Europa é o prêmio que recompensa qualidade.
O recado para o setor
O DDG é, na minha leitura, o pilar mais estratégico para a rentabilidade da pecuária brasileira moderna.
Sua capacidade de substituir o farelo de soja oferece blindagem contra as oscilações de preço das commodities tradicionais.
Sua expansão está atrelada a um modelo de etanol de baixo carbono que não compete com a produção de alimentos.
Mas a sustentabilidade desse modelo depende de uma mudança de paradigma:
transformar um coproduto bruto em um alimento funcional, premium, de altíssimo rendimento e com certificação de qualidade.
Não é uma luta nova — venho defendendo essa pauta há três anos.
É uma luta árdua, sim.
Mas é a luta certa.
Porque, no fim das contas, essa ração alimenta bovinos, suínos, aves e peixes.
E esses animais alimentam o ser humano.
Tratar o DDG e o DDGS com o cuidado que eles merecem não é uma decisão técnica — é uma decisão estratégica para todo o agro brasileiro.
Da teoria à prática: como transformar o seu DDGS em um produto premium
Toda a tese deste artigo — maior digestibilidade, proteína preservada, coloração dourada como assinatura de qualidade e ganho logístico com a peletização — passa, na prática, por uma palavra:
engenharia.
E é aí que entra a Fertron.
Nós da Fertron somos especialistas em evaporação, secagem e automação industrial, projetando soluções que garantem o melhor desempenho do seu equipamento e a integridade nutricional do DDG/DDGS produzido na sua planta.
Trabalhamos com secagem de baixa temperatura, aproveitamento de calor residual e controle fino de processo — exatamente o que o mercado brasileiro precisa para competir lá fora.
Se a sua destilaria, fábrica de ração ou agroindústria quer elevar o padrão do seu coproduto e abrir novos mercados, vamos conversar.
Autora: Agata Turini | Advogada, pós-graduada FGV · Comunicadora do agro