Desvendando o Tratamento de Caldo: como funciona, principais erros e como dominar o processo?

Entenda como funciona o tratamento de caldo, os principais erros operacionais e como dominar o processo para aumentar rendimento, qualidade e eficiência na usina.
Por que o Tratamento de Caldo é o que Define o Lucro da Usina?

Entenda por que o tratamento de caldo é decisivo para o lucro da usina, impactando rendimento, qualidade, eficiência energética e estabilidade operacional.
Cozimento de Açúcar: Sistemas Batelada vs Contínuo na Indústria Automatizada

Entenda as diferenças entre sistemas batelada e contínuo automatizados e seus impactos em rendimento, qualidade e eficiência.
Da Lavoura ao Cristal: A Jornada Inteligente do Açúcar

Da lavoura ao cristal, entenda como a automação transforma a produção de açúcar, elevando rendimento, qualidade e eficiência industrial.
A Precisão como Pilar da Eficiência: A Necessidade de Medições Avançadas na Evaporação do Setor Sucroenergético

O setor sucroenergético, uma das forças motrizes da economia brasileira, opera em um ambiente de alta competitividade, onde a máxima eficiência e a otimização de recursos são cruciais para a rentabilidade. Em meio a um processo produtivo complexo, a etapa de evaporação do caldo de cana se destaca como um ponto crítico, cujo desempenho impacta diretamente o consumo de vapor, a qualidade do xarope e, consequentemente, a eficiência geral da planta. Nesse contexto, a precisão na medição de nível dos evaporadores transcende o status de um simples controle de processo, tornando-se um pilar estratégico para a competitividade da usina. O Desafio da Medição em Ambientes Instáveis Tradicionalmente, a medição de nível em evaporadores tem sido realizada por transmissores de pressão diferencial. Embora tenham atendido às necessidades do setor por muitos anos, esses instrumentos apresentam uma limitação intrínseca: sua medição é indiretamente afetada pelas variações de densidade do caldo. Durante o processo de evaporação, a concentração de sólidos (Brix) aumenta, alterando a densidade do líquido. Essa variação pode levar a leituras de nível imprecisas, resultando em um controle deficiente da alimentação do caldo e da retirada do xarope. Um controle inadequado nesta etapa pode causar desde o arraste de açúcar para os condensadores até a queima do produto por baixo nível, gerando perdas significativas e instabilidade operacional. Como destacado pela Fertron, empresa com 40 anos de experiência em automação para o setor, o “baixo controle sobre variáveis críticas” e o “alto consumo de energia em processos como moagem e evaporação” são desafios comuns enfrentados pelas usinas [1]. A falta de dados confiáveis e em tempo real dificulta a tomada de decisão e a otimização do processo, perpetuando gargalos operacionais que impactam a rentabilidade. A Solução Radar: Precisão e Confiabilidade Incontestáveis Diante dos desafios apresentados pelos métodos tradicionais, a tecnologia de medição de nível por radar surge como a solução mais eficiente e confiável para a evaporação. Diferentemente dos transmissores de pressão, os radares — sejam de onda livre ou de onda guiada — realizam uma medição direta da distância entre o sensor e a superfície do líquido. O princípio de funcionamento, baseado no tempo de voo de um sinal de micro-ondas, não é afetado por variações de densidade, pressão, temperatura ou vácuo, condições típicas do processo de evaporação. Essa independência das condições de processo garante uma medição de nível precisa e repetível, permitindo um controle muito mais fino e estável da alimentação e da concentração do caldo. O resultado é um processo de evaporação otimizado, com menor consumo de vapor, maior estabilidade operacional e um produto final de maior qualidade e consistência. Tecnologia de Medição Princípio de Funcionamento Influência da Densidade Precisão na Evaporação Transmissor de Pressão Medição de pressão hidrostática Alta (medição indireta) Baixa a Média Radar (Onda Livre/Guiada) Medição do tempo de voo de micro-ondas Nenhuma (medição direta) Alta a Muito Alta A Visão da Fertron: Rumo à Transformação Digital A recomendação pela tecnologia de radar está em total alinhamento com a visão de futuro para o setor sucroenergético, que aponta para uma transformação digital cada vez mais profunda. A Fertron, em sua documentação sobre o tema, enfatiza que a modernização da instrumentação é o primeiro passo para a digitalização, pois “sem dados confiáveis, não há transformação digital” [1]. A implementação de “instrumentação inteligente com sensores precisos e conectados” é a base para a criação de uma operação conectada, inteligente e orientada por dados. Conclusão A busca por maior eficiência e competitividade no setor sucroenergético passa, inevitavelmente, pela adoção de tecnologias que garantam maior controle e precisão sobre os processos. Na etapa de evaporação, a substituição de tecnologias de medição de nível convencionais por sistemas baseados em radar representa um salto qualitativo, eliminando a incerteza causada pela variação de densidade e proporcionando uma base sólida para a otimização do processo. Como aponta a experiência da Fertron, investir em medições precisas não é apenas uma melhoria operacional, mas um passo fundamental na jornada de transformação digital que irá definir os líderes do setor no futuro. Referências [1] Fertron. “Transformação Digital no Setor Sucroenergético”. Disponível em: https://www.fertron.com.br/2025/08/04/transformacao-digital-no-setor-sucroenergetico/
O Papel Crucial dos Transmissores de pH na Otimização do Setor Sucroenergético

Autor: Ágata Turini O setor sucroenergético, um dos pilares da economia brasileira, opera com processos complexos que demandam um controle rigoroso para garantir a máxima eficiência, a qualidade do produto final e a sustentabilidade das operações. Dentro da vasta gama de variáveis que necessitam de monitoramento contínuo, o potencial hidrogeniônico (pH) emerge como um dos parâmetros mais críticos. A medição e o controle precisos do pH em diversas etapas do processo, desde o tratamento do caldo até a fermentação, são fundamentais para otimizar o rendimento, evitar perdas e reduzir custos. Neste contexto, os transmissores de pH se consolidam como ferramentas indispensáveis, fornecendo dados em tempo real que permitem uma tomada de decisão ágil e assertiva. Este artigo explora a importância dos transmissores de pH no setor sucroenergético, com um foco especial em sua aplicação no tratamento do caldo caleado e em outras fases cruciais do processo. Analisaremos também as tecnologias inovadoras que endereçam os desafios do ambiente industrial, como o transmissor PHM0033 da Fertron e os sistemas autolimpantes, que representam um avanço significativo na automação e na confiabilidade das medições. O que é um Transmissor de pH? Um transmissor de pH é um instrumento analítico projetado para medir a acidez ou alcalinidade de uma solução e converter essa medição em um sinal elétrico padronizado, que pode ser lido e interpretado por sistemas de controle, como Controladores Lógicos Programáveis (CLPs) ou Sistemas de Controle Distribuído (SCDs). Essencialmente, o sistema é composto por um eletrodo de pH, que entra em contato direto com o fluido do processo, e o transmissor, que processa o sinal do eletrodo, compensa a variação de temperatura e envia a informação para a sala de controle. A capacidade de realizar este monitoramento de forma contínua e em tempo real é o que torna esta tecnologia vital para a automação industrial, permitindo o controle automático de dosagens e a manutenção das condições ideais de processo. Aplicações Chave no Setor Sucroenergético A medição de pH é onipresente na usina de açúcar e etanol, mas algumas aplicações se destacam por seu impacto direto na eficiência e rentabilidade do processo. Tratamento do Caldo de Cana (Caldo Caleado) Após a extração na moenda, o caldo de cana passa por uma etapa fundamental de tratamento para a remoção de impurezas. Uma das fases centrais deste tratamento é a caleagem, onde se adiciona leite de cal (hidróxido de cálcio) ao caldo. Este processo, conforme detalhado pela Embrapa, tem múltiplos objetivos, como a neutralização da acidez natural do caldo, a coagulação de impurezas coloidais e a precipitação de compostos indesejáveis [1]. O controle do pH nesta etapa é extremamente delicado. Um pH inadequado pode levar à inversão da sacarose (sua quebra em glicose e frutose), resultando em perdas significativas de matéria-prima para a produção de açúcar. Por outro lado, um excesso de cal pode levar à formação de compostos corantes e à degradação de açúcares redutores. O monitoramento preciso com transmissores de pH permite a dosagem automática e controlada do leite de cal, mantendo o processo dentro das faixas ideais. Faixa de pH Efeito no Processo de Tratamento do Caldo 7,0 – 7,8 Faixa ideal durante a reação de caleagem para neutralização e início da coagulação. 5,6 – 5,9 pH ideal para o caldo decantado, minimizando a corrosão e a remoção de nutrientes essenciais para a fermentação [1]. Abaixo de 5,5 Risco de corrosão acentuada nos equipamentos e inversão da sacarose. Acima de 8,0 Risco de degradação de açúcares, formação de cor e prejuízo ao crescimento de leveduras na etapa seguinte. Tratamento de licor para refinaria A aplicação de medição e controle de pH no sistema de tratamento de licor tem uma importância muito grande na questão da qualidade da matéria prima para refinaria de açúcar, onde temos a dosagem exata de Sacarato (xarope e leite de cal) assim produtos químicos no fluido e sendo assim se consegue uma estabilidade de cor no produto final. A finalidade desta medição e controle e conseguir uma cor em primeira de até 30 icumsa, com isto temos a base para uma qualidade uniforme de açúcar refinado. Fermentação Alcoólica Na produção de etanol, o controle do pH é igualmente vital para o bom desempenho das leveduras, os microrganismos responsáveis por converter os açúcares em álcool. As leveduras, como a Saccharomyces cerevisiae, possuem uma faixa de pH ótima para sua atividade metabólica. Fora dessa faixa, seu rendimento cai drasticamente, e abre-se espaço para a proliferação de bactérias contaminantes, que competem pelos açúcares e podem produzir ácidos que inibem ainda mais a fermentação. O monitoramento contínuo do pH nas dornas de fermentação permite a correção imediata de desvios, garantindo um ambiente estável e propício para as leveduras. Conforme dados de mercado, diferentes etapas do ciclo de fermentação exigem diferentes níveis de pH, como mostra a pesquisa sobre monitoramento em dornas [2]: • Fermentação: O pH ideal para a atividade das leveduras geralmente se situa entre 4,5 e 5,0. • Tratamento Ácido: Para a recuperação e tratamento das leveduras após a centrifugação, o pH é reduzido para uma faixa entre 2,5 e 3,0 para eliminar bactérias contaminantes. • Multiplicação: Na fase de propagação do fermento, o pH ideal fica entre 5,0 e 6,0. Tecnologia e Inovação: O Transmissor de pH Fertron PHM0033 Para atender às rigorosas demandas do setor sucroenergético, a tecnologia dos transmissores de pH tem evoluído constantemente. Um exemplo notável é o Medidor de pH / ORP PHM0033 da Fertron. Este equipamento foi projetado para oferecer robustez e precisão em ambientes industriais agressivos. Suas características, detalhadas em sua ficha técnica, o tornam particularmente adequado para as usinas [3]: • Grau de Proteção IP67: O invólucro totalmente protegido contra poeira e imersão em água garante a durabilidade do equipamento em áreas úmidas e com particulados, comuns nas usinas. • Comunicação Modbus RS485: Permite uma integração digital e confiável com os sistemas de automação da planta, facilitando o controle em malha fechada. • Calibração Inteligente e Correção de Temperatura: Funções que simplificam a manutenção e garantem a acuracidade da medição, compensando automaticamente as variações de temperatura do processo. • Múltiplas Saídas: Possui saídas analógicas (4-20mA) e a relé, oferecendo flexibilidade para diferentes arquiteturas de controle e alarme. Superando Desafios: O Sistema Autolimpante Um dos maiores desafios na medição de pH em processos como o tratamento do caldo de cana é a
A Arte e a Ciência do Cozedor de Açúcar

Aprenda como transformar o cozedor de açúcar em um sistema previsível, eficiente e padronizado. Conheça a arte e a ciência do cozimento e aumente o rendimento industrial da sua usina.
Tendências da Automação e Inteligência Artificial para a Indústria em 2026

A indústria atravessa um dos períodos mais complexos e decisivos de sua história recente. O aumento da competitividade global, a volatilidade de custos, as exigências ambientais, a escassez de mão de obra qualificada e a necessidade de decisões cada vez mais rápidas expõem os limites dos modelos tradicionais de operação e gestão industrial. Processos produtivos modernos operam com níveis elevados de interdependência. Variáveis como temperatura, pressão, vazão, consumo energético, desempenho de ativos, qualidade do produto e disponibilidade operacional se influenciam continuamente. Uma decisão tomada de forma isolada pode gerar impactos significativos em produtividade, custos, segurança e confiabilidade. Nesse cenário, automação industrial avançada e inteligência artificial deixam de ser iniciativas tecnológicas isoladas e passam a atuar como estruturas estratégicas de sustentação da competitividade industrial. A evolução da automação industrial A automação industrial passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Se antes seu papel estava concentrado na execução de comandos e na repetibilidade de processos, hoje ela assume uma função muito mais ampla: garantir estabilidade operacional, gerar dados confiáveis e sustentar decisões complexas em tempo real. Sensores inteligentes, instrumentação precisa, redes industriais robustas, sistemas de controle integrados, plataformas de análise de dados e soluções em nuvem formam a base da indústria digital. Essa infraestrutura permite visibilidade contínua da operação, rastreabilidade de eventos, integração entre áreas e resposta rápida a desvios de processo. A automação deixa de ser apenas um meio de controle e passa a ser o alicerce da inteligência operacional. A importância dos dados para a indústria moderna Com a evolução da automação, os dados tornam-se o principal ativo estratégico da indústria. Cada equipamento, ativo ou etapa do processo gera informações continuamente, criando um volume massivo de dados operacionais. No entanto, dados isolados não geram valor. O diferencial competitivo está na capacidade de coletar, organizar, correlacionar e interpretar essas informações de forma confiável e contextualizada. Dados bem estruturados permitem entender não apenas o que aconteceu, mas por que aconteceu e o que tende a acontecer a seguir. Empresas que dominam essa etapa deixam de atuar de forma reativa e passam a antecipar cenários, reduzir incertezas e tomar decisões com maior precisão. O papel da inteligência artificial na indústria É a partir dessa base de dados que a inteligência artificial se consolida como um elemento estratégico da operação industrial. Diferentemente dos sistemas tradicionais, a IA é capaz de aprender padrões, identificar correlações complexas e evoluir continuamente com base em novas informações. Na prática, isso se traduz em aplicações como: A inteligência artificial não substitui o conhecimento técnico humano. Ela potencializa a capacidade de análise, reduz riscos associados à tomada de decisão e amplia a velocidade de resposta da operação. Integração entre automação, inteligência artificial e operação Um ponto fundamental para o sucesso da transformação digital é compreender que automação e inteligência artificial não operam de forma independente. A geração de valor ocorre quando há integração entre sistemas de controle, plataformas analíticas e processos operacionais. Sem automação confiável, os dados são inconsistentes. Sem dados estruturados, a inteligência artificial perde eficácia. Sem integração com a operação, os insights não se convertem em ação. A indústria que alcança maturidade digital é aquela capaz de conectar esses elementos de forma contínua, criando um ciclo de melhoria permanente. Pessoas e maturidade digital como fator crítico Apesar do avanço tecnológico, o fator humano permanece central. À medida que sistemas se tornam mais inteligentes, o papel das pessoas se desloca da execução para a análise, supervisão e decisão. Profissionais industriais precisam desenvolver fluência em dados, capacidade de interpretar indicadores, compreender limitações dos modelos analíticos e agir com rapidez diante de cenários complexos. Essa transformação impacta todas as áreas: engenharia, operação, manutenção e gestão. Além disso, diferentes níveis de maturidade digital convivem dentro do setor industrial. Grandes grupos avançam rapidamente com soluções integradas, enquanto outras operações evoluem de forma progressiva, iniciando pela instrumentação e automação básica. Ambos os caminhos fazem parte da mesma jornada. Transformação digital como jornada contínua Automação e inteligência artificial não representam projetos com início, meio e fim definidos. Elas fazem parte de uma jornada contínua de evolução, onde processos, tecnologias e competências precisam ser constantemente revisados e aprimorados. Empresas que adotam essa mentalidade constroem operações mais resilientes, previsíveis e preparadas para lidar com a complexidade crescente do ambiente industrial. Aquelas que postergam decisões enfrentam perda gradual de eficiência, flexibilidade e competitividade. 📘 Baixe gratuitamente o e-book completo Este artigo apresenta uma visão estratégica sobre as principais tendências da indústria. Para aprofundar conceitos, aplicações práticas e impactos organizacionais, a Fertron desenvolveu o material completo: E-BOOK | Tendências da Automação e Inteligência Artificial para a Indústria em 2026 No e-book você encontrará: 👉 Baixe gratuitamente o e-book e prepare sua operação para o futuro da indústria. Conclusão O horizonte até 2026 aponta para uma indústria cada vez mais orientada por dados, integrada e analítica. Automação industrial e inteligência artificial deixam de ser diferenciais e se consolidam como pilares estruturais da competitividade. Preparar-se hoje significa garantir eficiência operacional, segurança, sustentabilidade e relevância no futuro. A transformação digital não é mais uma escolha estratégica — é uma necessidade.
SAF: O Combustível Verde que Redefine o Futuro da Aviação e Impulsiona a Bioenergia

Por: Ágata Turini Introdução A aviação, um dos pilares da conectividade global, enfrenta um desafio monumental: a descarbonização. Responsável por aproximadamente 2,5% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂), o setor busca urgentemente alternativas viáveis ao querosene de aviação de origem fóssil¹. Nesse cenário, o Combustível de Aviação Sustentável (SAF, da sigla em inglês Sustainable Aviation Fuel) emerge como a solução mais promissora e estratégica no curto e médio prazo. Este artigo técnico explora em profundidade o que é o SAF, seus benefícios, a história de seu desenvolvimento, os complexos processos de produção e, crucialmente, como sua ascensão está destinada a criar uma nova e robusta demanda para o mercado de bioenergia, consolidando seu papel como um combustível verde essencial para o futuro. Uma Breve História do Voo Sustentável A jornada em direção a uma aviação mais sustentável começou a ganhar tração no início dos anos 2000, impulsionada pela crescente conscientização sobre as mudanças climáticas. O marco inicial ocorreu em 2008, quando a Virgin Atlantic operou um voo de teste com um Boeing 747, utilizando uma mistura de 20% de biocombustível derivado de óleo de coco e babaçu em um de seus motores. Este evento pioneiro demonstrou a viabilidade técnica do uso de biocombustíveis na aviação comercial. O passo regulatório decisivo veio em 2009, com a publicação da norma ASTM D7566, que estabeleceu os rigorosos padrões de qualidade e segurança para combustíveis de aviação sintéticos. Essa certificação permitiu que o SAF fosse oficialmente misturado ao querosene convencional (em proporções que hoje podem chegar a 50%) e utilizado em milhares de voos comerciais globalmente, garantindo a segurança e o desempenho das aeronaves². Desde então, a indústria tem avançado, culminando em marcos recentes, como o anúncio da Petrobras em dezembro de 2025 sobre a produção do primeiro lote de SAF totalmente em território brasileiro³. Os Benefícios Multifacetados do SAF O principal atrativo do SAF é seu benefício ambiental. Dependendo da matéria-prima e da tecnologia de produção, o SAF pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em até 87% ao longo de seu ciclo de vida, em comparação com o querosene fóssil³. Isso ocorre porque o carbono emitido na queima do SAF é reabsorvido pelas plantas que dão origem à biomassa, criando um ciclo de carbono mais fechado. Além dos benefícios ambientais, o SAF é um combustível “drop-in”, o que significa que é quimicamente análogo ao querosene convencional. Essa característica é fundamental, pois permite sua utilização sem a necessidade de modificações dispendiosas nos motores das aeronaves ou na infraestrutura existente de abastecimento e distribuição nos aeroportos⁴. Estrategicamente, o desenvolvimento de uma indústria de SAF fortalece a segurança energética dos países, reduzindo a dependência do petróleo importado e criando uma nova cadeia de valor baseada em recursos renováveis locais. Como o SAF é Produzido: As Rotas Tecnológicas A produção de SAF é um campo de intensa inovação tecnológica, com diversas rotas certificadas pela ASTM. As mais proeminentes são a HEFA, a ATJ e a Fischer-Tropsch, além de métodos inovadores como o coprocessamento. HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids)Matérias-primas comuns: óleos vegetais (soja, palma), óleo de cozinha usado, gorduras animais.Descrição do processo: as moléculas de gordura (triglicerídeos) são tratadas com hidrogênio (hidroprocessamento) para remover o oxigênio e, em seguida, são craqueadas para atingir o tamanho de molécula do querosene.Nível de maturidade: Alta (rota mais consolidada comercialmente). ATJ (Alcohol-to-Jet)Matérias-primas comuns: álcoois como etanol (de cana-de-açúcar, milho) e isobutanol.Descrição do processo: o álcool é desidratado para formar olefinas, que são então unidas (oligomerização) para criar cadeias de hidrocarbonetos mais longas, posteriormente processadas para se tornarem querosene.Nível de maturidade: Média (em expansão, grande potencial para o Brasil). Fischer-Tropsch (FT)Matérias-primas comuns: biomassa sólida (resíduos agrícolas, florestais), gás de síntese.Descrição do processo: a biomassa é gaseificada para produzir gás de síntese (CO + H₂), que é então convertido em hidrocarbonetos líquidos através do processo Fischer-Tropsch.Nível de maturidade: Média (tecnologia estabelecida, mas com custo elevado). Recentemente, a Petrobras iniciou a produção de SAF através do coprocessamento em sua Refinaria Duque de Caxias (Reduc). Nessa abordagem, uma parcela de matéria-prima renovável (como óleo vegetal) é inserida diretamente na corrente de refino de petróleo, sendo processada junto com a carga fóssil em unidades de hidrotratamento já existentes. Este método representa uma solução de capital inicial mais baixo para acelerar a oferta de combustíveis com menor pegada de carbono³. A Nova Fronteira da Bioenergia: A Demanda Gerada pelo SAF A ascensão do SAF representa uma revolução para o mercado de bioenergia, criando uma nova e massiva demanda por matérias-primas renováveis. O setor de aviação consome volumes de combustível ordens de magnitude maiores que outros modais, e a transição para o SAF irá remodelar a economia agrícola e energética. 1. Expansão para o Setor SucroenergéticoA rota ATJ abre um mercado de altíssimo valor agregado para o etanol brasileiro, seja de cana ou de milho. A demanda da aviação pode absorver excedentes de produção e incentivar a expansão da cultura com foco em tecnologia e produtividade, indo muito além do mercado de veículos leves. 2. Valorização de Resíduos e Economia CircularA produção de SAF via HEFA a partir de óleo de cozinha usado, gorduras animais e outros resíduos não apenas soluciona um problema de descarte, mas também transforma passivos ambientais em ativos energéticos, fomentando a economia circular. 3. Impulso à Inovação AgrícolaA demanda por óleos vegetais incentivará o desenvolvimento de culturas energéticas mais produtivas e sustentáveis, como novas variedades de soja, palma e microalgas, com foco em otimizar a produção de óleo por hectare. O Brasil, com sua vasta experiência no agronegócio e na produção de etanol, está em uma posição privilegiada para se tornar um líder global na produção e exportação de SAF. O recente anúncio da Petrobras é um sinal claro desse potencial, inaugurando uma cadeia produtiva que integra o campo à turbina do avião. Investimentos bilionários, como os previstos no âmbito da chamada pública do BNDES e da Finep, devem acelerar a construção de biorrefinarias dedicadas, gerando empregos e desenvolvimento tecnológico⁵. Conclusão: Decolando para um Futuro Verde O
O Futuro da Bioenergia no Brasil: Entre a Inovação Tecnológica e o Desafio Humano

Por Ágata Turini Introdução O Brasil, um líder global em bioenergia, encontra-se em um ponto de inflexão. A crescente demanda por energia limpa e a necessidade de descarbonização impulsionam o setor a novos patamares de inovação e crescimento. No entanto, o futuro da bioenergia no país não é apenas uma questão de tecnologia, mas também de pessoas. Esta análise, baseada em uma entrevista concedida ao Grupo Fertron com o especialista Hugo Cagno, Diretor do Grupo Tereos e Presidente da UDOP, e em uma pesquisa aprofundada sobre as tendências do setor, explora os caminhos e desafios que moldarão a próxima década da bioenergia no Brasil. O Fator Humano: Um Chamado à Ação Um dos maiores desafios para o futuro da bioenergia no Brasil não está no campo ou no laboratório, mas na formação de pessoas. Hugo Cagno, com seus 51 anos de experiência no setor, é enfático ao apontar a falta de mão de obra qualificada como um gargalo para o crescimento. “Ninguém quer ir pro campo, ninguém quer trabalhar”, lamenta, destacando a falta de interesse dos jovens em carreiras na área industrial e agrícola. A mudança de mentalidade, com a preferência por trabalhos em escritórios e no ambiente digital, cria um vácuo de profissionais dispostos a atuar na linha de frente da produção. Para contornar essa situação, a iniciativa privada tem assumido a liderança na capacitação. Cagno menciona parcerias com empresas como a Datá para a criação de cursos e treinamentos rápidos, que oferecem uma base sólida para novos operadores de máquinas. Essa abordagem pragmática, que não espera por soluções governamentais, é essencial para suprir a demanda por profissionais qualificados e garantir a continuidade das operações em um setor cada vez mais tecnológico. A Fronteira Tecnológica: Inovações que Moldam o Futuro Paralelamente ao desafio humano, a tecnologia avança a passos largos. O futuro da bioenergia é marcado por inovações que prometem aumentar a eficiência, a sustentabilidade e a competitividade do setor. Entre as principais tendências, destacam-se: • Etanol de Segunda Geração (Celulósico): Uma das mais promissoras inovações, o etanol celulósico permite a produção de biocombustível a partir de resíduos agrícolas, como o bagaço e a palha da cana-de-açúcar. Essa tecnologia tem o potencial de aumentar a produção em até 50% sem a necessidade de expandir a área plantada. • Biotecnologia e Engenharia Genética: O desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar e outras culturas mais produtivas, resistentes a pragas e adaptadas a diferentes condições climáticas é fundamental para o aumento da eficiência agrícola. A engenharia genética também tem sido aplicada no desenvolvimento de leveduras e bactérias mais eficientes para o processo de fermentação. • Automação e Inteligência Artificial: A agricultura 4.0 já é uma realidade no setor sucroenergético. Tratores e colheitadeiras autônomas, equipados com inteligência artificial, otimizam o plantio, a colheita e a logística, reduzindo custos e aumentando a produtividade. No entanto, como ressalta Cagno, “não adianta nada inteligência artificial se a gente não tiver o cérebro, a pessoa” para operar e gerenciar essas tecnologias. • Tecnologias de Captura de Carbono: A busca por uma economia de baixo carbono tem impulsionado o desenvolvimento de tecnologias como o BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage) e o biochar. O BECCS captura o CO2 emitido durante a produção de etanol e o armazena em formações geológicas, enquanto o biochar, um tipo de carvão vegetal, sequestra o carbono no solo. Essas tecnologias têm o potencial de tornar o etanol um combustível com pegada de carbono negativa, ou seja, que retira mais carbono da atmosfera do que emite 1 . Sustentabilidade como Pilar: Crescimento sem Compromisso A expansão da produção de bioenergia no Brasil pode e deve ocorrer de forma sustentável. Um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) aponta que o país pode mais do que dobrar a produção de biocombustíveis até 2050 sem a necessidade de novos desmatamentos. A chave para isso está no aproveitamento de pastagens degradadas, que somam cerca de 56 milhões de hectares, e no investimento em culturas de alta produtividade, como a macaúba, que pode produzir até dez vezes mais óleo por hectare do que a soja 2 . Para garantir que a expansão da bioenergia não pressione os ecossistemas naturais, é fundamental a implementação de políticas de monitoramento e regramento do uso do solo, além de salvaguardas socioambientais. O compromisso com o desmatamento zero, assumido pelo Brasil, deve ser um pilar inegociável na estratégia de crescimento do setor. Um Futuro Diversificado e Resiliente: Além da Cana-de-Açúcar Apesar da dominância da cana-de-açúcar, o futuro da bioenergia no Brasil será cada vez mais diversificado. Novas matérias-primas estão ganhando espaço e prometem aumentar a resiliência e a competitividade do setor: • Milho: O etanol de milho já é uma realidade, respondendo por cerca de um quinto da produção nacional em 2024. A expansão dessa cultura, principalmente na segunda safra, tem impulsionado a construção de novas usinas e consolidado o Brasil como um player relevante nesse mercado 3 . • Sorgo e Trigo: As primeiras usinas comerciais de etanol de sorgo e trigo estão entrando em operação, abrindo novas fronteiras para a produção de biocombustíveis em regiões onde a cana-de-açúcar não é viável. • Agave: A planta utilizada na produção de tequila tem se mostrado uma alternativa promissora para a produção de etanol em regiões semiáridas, como o Nordeste brasileiro. A diversificação de matérias-primas, além de aumentar a oferta de biocombustíveis, reduz a dependência de uma única cultura e contribui para a segurança energética do país. Conclusão: O Brasil na Vanguarda da Revolução Bioenergética O futuro da bioenergia no Brasil é promissor e desafiador. A combinação de inovação tecnológica, diversidade de matérias-primas e um vasto potencial de expansão sustentável coloca o país em uma posição privilegiada para liderar a transição energética global. No entanto, para que essa promessa se concretize, é fundamental um esforço conjunto entre o setor privado, o governo e a sociedade para superar o desafio da formação de capital humano. Como afirma Hugo Cagno, “guardar pra gente não serve pra nada”. A transmissão de conhecimento e a