Autor: Ágata Turini
O setor sucroenergético, um dos pilares da economia brasileira, opera com processos complexos que demandam um controle rigoroso para garantir a máxima eficiência, a qualidade do produto final e a sustentabilidade das operações. Dentro da vasta gama de variáveis que necessitam de monitoramento contínuo, o potencial hidrogeniônico (pH) emerge como um dos parâmetros mais críticos. A medição e o controle precisos do pH em diversas etapas do processo, desde o tratamento do caldo até a fermentação, são fundamentais para otimizar o rendimento, evitar perdas e reduzir custos. Neste contexto, os transmissores de pH se consolidam como ferramentas indispensáveis, fornecendo dados em tempo real que permitem uma tomada de decisão ágil e assertiva.
Este artigo explora a importância dos transmissores de pH no setor sucroenergético, com um foco especial em sua aplicação no tratamento do caldo caleado e em outras fases cruciais do processo. Analisaremos também as tecnologias inovadoras que endereçam os desafios do ambiente industrial, como o transmissor PHM0033 da Fertron e os sistemas autolimpantes, que representam um avanço significativo na automação e na confiabilidade das medições.
O que é um Transmissor de pH?
Um transmissor de pH é um instrumento analítico projetado para medir a acidez ou alcalinidade de uma solução e converter essa medição em um sinal elétrico padronizado, que pode ser lido e interpretado por sistemas de controle, como Controladores Lógicos Programáveis (CLPs) ou Sistemas de Controle Distribuído (SCDs). Essencialmente, o sistema é composto por um eletrodo de pH, que entra em contato direto com o fluido do processo, e o transmissor, que processa o sinal do eletrodo, compensa a variação de temperatura e envia a informação para a sala de controle. A capacidade de realizar este monitoramento de forma contínua e em tempo real é o que torna esta tecnologia vital para a automação industrial, permitindo o controle automático de dosagens e a manutenção das condições ideais de processo.
Aplicações Chave no Setor Sucroenergético
A medição de pH é onipresente na usina de açúcar e etanol, mas algumas aplicações se destacam por seu impacto direto na eficiência e rentabilidade do processo.
Tratamento do Caldo de Cana (Caldo Caleado)
Após a extração na moenda, o caldo de cana passa por uma etapa fundamental de tratamento para a remoção de impurezas. Uma das fases centrais deste tratamento é a caleagem, onde se adiciona leite de cal (hidróxido de cálcio) ao caldo. Este processo, conforme detalhado pela Embrapa, tem múltiplos objetivos, como a neutralização da acidez natural do caldo, a coagulação de impurezas coloidais e a precipitação de compostos indesejáveis [1].
O controle do pH nesta etapa é extremamente delicado. Um pH inadequado pode levar à inversão da sacarose (sua quebra em glicose e frutose), resultando em perdas significativas de matéria-prima para a produção de açúcar. Por outro lado, um excesso de cal pode levar à formação de compostos corantes e à degradação de açúcares redutores. O monitoramento preciso com transmissores de pH permite a dosagem automática e controlada do leite de cal, mantendo o processo dentro das faixas ideais.
| Faixa de pH | Efeito no Processo de Tratamento do Caldo |
| 7,0 – 7,8 | Faixa ideal durante a reação de caleagem para neutralização e início da coagulação. |
| 5,6 – 5,9 | pH ideal para o caldo decantado, minimizando a corrosão e a remoção de nutrientes essenciais para a fermentação [1]. |
| Abaixo de 5,5 | Risco de corrosão acentuada nos equipamentos e inversão da sacarose. |
| Acima de 8,0 | Risco de degradação de açúcares, formação de cor e prejuízo ao crescimento de leveduras na etapa seguinte. |
Tratamento de licor para refinaria
A aplicação de medição e controle de pH no sistema de tratamento de licor tem uma importância muito grande na questão da qualidade da matéria prima para refinaria de açúcar, onde temos a dosagem exata de Sacarato (xarope e leite de cal) assim produtos químicos no fluido e sendo assim se consegue uma estabilidade de cor no produto final.
A finalidade desta medição e controle e conseguir uma cor em primeira de até 30 icumsa, com isto temos a base para uma qualidade uniforme de açúcar refinado.
Fermentação Alcoólica
Na produção de etanol, o controle do pH é igualmente vital para o bom desempenho das leveduras, os microrganismos responsáveis por converter os açúcares em álcool. As leveduras, como a Saccharomyces cerevisiae, possuem uma faixa de pH ótima para sua atividade metabólica. Fora dessa faixa, seu rendimento cai drasticamente, e abre-se espaço para a proliferação de bactérias contaminantes, que competem pelos açúcares e podem produzir ácidos que inibem ainda mais a fermentação.
O monitoramento contínuo do pH nas dornas de fermentação permite a correção imediata de desvios, garantindo um ambiente estável e propício para as leveduras. Conforme dados de mercado, diferentes etapas do ciclo de fermentação exigem diferentes níveis de pH, como mostra a pesquisa sobre monitoramento em dornas [2]:
• Fermentação: O pH ideal para a atividade das leveduras geralmente se situa entre 4,5 e 5,0.
• Tratamento Ácido: Para a recuperação e tratamento das leveduras após a centrifugação, o pH é reduzido para uma faixa entre 2,5 e 3,0 para eliminar bactérias contaminantes.
• Multiplicação: Na fase de propagação do fermento, o pH ideal fica entre 5,0 e 6,0.
Tecnologia e Inovação: O Transmissor de pH Fertron PHM0033
Para atender às rigorosas demandas do setor sucroenergético, a tecnologia dos transmissores de pH tem evoluído constantemente. Um exemplo notável é o Medidor de pH / ORP PHM0033 da Fertron. Este equipamento foi projetado para oferecer robustez e precisão em ambientes industriais agressivos. Suas características, detalhadas em sua ficha técnica, o tornam particularmente adequado para as usinas [3]:
• Grau de Proteção IP67: O invólucro totalmente protegido contra poeira e imersão em água garante a durabilidade do equipamento em áreas úmidas e com particulados, comuns nas usinas.
• Comunicação Modbus RS485: Permite uma integração digital e confiável com os sistemas de automação da planta, facilitando o controle em malha fechada.
• Calibração Inteligente e Correção de Temperatura: Funções que simplificam a manutenção e garantem a acuracidade da medição, compensando automaticamente as variações de temperatura do processo.
• Múltiplas Saídas: Possui saídas analógicas (4-20mA) e a relé, oferecendo flexibilidade para diferentes arquiteturas de controle e alarme.
Superando Desafios: O Sistema Autolimpante
Um dos maiores desafios na medição de pH em processos como o tratamento do caldo de cana é a impregnação (ou fouling) do eletrodo. O caldo é um meio viscoso, com alta concentração de sólidos em suspensão e potencial para incrustação, o que pode cobrir a membrana sensível do eletrodo, levando a leituras lentas, imprecisas e, eventualmente, à falha do sensor. Isso exige paradas frequentes para limpeza e calibração manual, gerando custos de mão de obra e perda de produtividade.
Para solucionar este problema, foram desenvolvidos sistemas de limpeza automática. Embora a página específica do sistema da Fertron estivesse indisponível durante a pesquisa, o conceito geral, presente em diversas soluções de mercado, envolve um mecanismo que retrai o eletrodo do processo e o submete a jatos de água, solução de limpeza ou ar comprimido em intervalos programados. Após a limpeza, o eletrodo é reinserido no processo. Essa automação garante que o sensor permaneça limpo e funcional por muito mais tempo, resultando em:
• Maior Confiabilidade: As medições permanecem precisas e estáveis.
• Redução da Manutenção: Diminui drasticamente a necessidade de intervenção manual.
• Aumento da Vida Útil do Eletrodo: A limpeza regular previne danos permanentes ao sensor.
• Melhora na Segurança: Reduz a exposição dos operadores a produtos químicos e ao processo.
Conclusão
O controle de pH é uma variável de processo inegociável para a competitividade e eficiência do setor sucroenergético. A implementação de transmissores de pH confiáveis e precisos em pontos críticos como o tratamento do caldo caleado, tratamento de licor para Refinaria e a fermentação alcoólica se traduz diretamente em maior rendimento de açúcar e etanol, menor consumo de insumos e redução de perdas. A adoção de tecnologias avançadas, como o transmissor PHM0033 da Fertron, e de inovações como os sistemas de limpeza automática, não é apenas uma melhoria operacional, mas um passo estratégico em direção a uma indústria 4.0, mais automatizada, inteligente e sustentável.
Referências
[1] Embrapa. “Tratamento do caldo”. Disponível em: https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/cana-de-acucar/pos-producao/processamento-da-cana-de-acucar/tratamento-do-caldo
[2] Acqua Nativa. “Monitoramento de pH em Dornas”. Disponível em: https://www.acquanativa.com.br/aplicacoes/monitoramento-ph-fermentacao.html
[3] Fertron. “PHM0033 Medidor de PH / ORP Datasheet”. Disponível em: https://fertron.com.br/images/shop/PHMeter_Datasheet_pt_V1_rev0.pdf